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sábado, 11 de agosto de 2012

Onde andas??


Questiono-me...


Continuo a dar comigo a conversar contigo, sempre que estou sozinha ou me sinto só.   continuas a vir à minha memória sempre que me chega o cheiro da terra molhada depois da chuva ou quando vejo um rasto branco deixado no céu por um avião.  e sabes que mais meu amor?  o cheiro morno do verão continua a trazer-me a imagem do teu rosto e dos teus incríveis olhos azuis!! 

O simples facto de hoje em dia, a viver em Angola, ver um telhado de colmo, faz-me recordar Punta Ballena e a nossa casa!!   a casa onde tantos planos foram concebidos, onde tantas palavras foram proferidas pelos nossos corações e onde tantas promessas foram assumidas. o que será feito do nosso quarto?   o quarto, onde tantas vez os nossos corpos se uniram... aquela cama especial, feita pelas tuas mãos, com a madeira de árvores do nosso jardim.  um leito digno de qualquer princesa e ao qual dedicaste tantas horas da tua vida.


Onde estás tu meu amor?  tu que prometeste que não me "falhavas" mas que já não estás aqui comigo!  


Sonho ainda com aquelas longas caminhadas, contigo na praia em Punta Ballena, com aqueles passeios nas bicicletas da Diná e do Walter a percorrer as ruas sinuosas de Portezuelo ou a subir ao arboretum do teu bisavô Lussich.    o que eu daria para que estes nossos amigos pudessem ser ainda os proprietários da casa onde tantas noites nos reunimos para jantar, para conversar ou para simplesmente estar e onde me senti sempre, como em casa!!   tantas coisas se passaram naquela casa, tantas melancólicas recordações vivem comigo, como o ver-te de de manhã esteirado na rede ou sentado na cadeira Bonet a ler o jornal, uma casa onde a música alegrava e nos acompanhava ao longo do dia, a casa onde a Diná cultivava ervas de cheiro e onde no jardim estava "plantada" uma escultura impressionante do Walter.  esta casa onde nos sentávamos na galeria, no banco corrido, para comer uma refeição ou ler um livro, beber um café, tomar um copo, ou onde ouvíamos o assobio do Sile quando passava depois de terminadas as compras para a tua mãe.   a casa onde te vi pela primeira vez em 2004 no meu jantar de boas vindas e onde tantas vezes me chamaste de gatita!!


Tantas e tantas noites loucas e divertidas enchem o meu cérebro, tantas e tantas recordações que perfumam a minha alma e deliciam ainda o meu coração desprendendo fragrâncias de ti, Adolfo


Hoje quando recordo tudo isto aflora um sorriso aos lábios e o meu coração transborda de ternura.
Tu partiste, a casa da Diná e do Walter já não lhes pertence, as bicicletas foram vendidas, a tua mãe também já partiu e a maioria das ligações que criámos estão a perder-se aos poucos.


Só me resta regressar a Punta e passear pela praia contigo porque esse lugar ainda continua a ser o nosso!!

Luanda, 8 de Agosto de 2012

sábado, 2 de outubro de 2010

Foi há tão pouco tempo...


foi há tão pouco tempo...
que te olhei pela primeira vez

éramos os dois sozinhos
depois de amores desavindos,
vidas de paixão...
alegrias
filhos!!

não procurava nada.

afinal estava de férias
por duas semanas apenas,
no time for romance!

uma amiga comum
imaginara a possibilidade
de uma empatia entre os dois.
expectativa dela
não a minha!

o final de uma longa viagem
tinha-me levado ao Cono Sur.
uma casa na praia
e um grupo heterogéneo
esperava a minha chegada

fomos apresentados
e não te dei importância.
escondida dentro de mim
sorria a todos
tentando encaixar-me neste lugar,
neste ambiente

a noite foi longa
horas trocadas
jet leg
e finalmente adormeci

no dia seguinte lá estavas,
lembro-me como se tivesse sido hoje.
com ternura na voz e palavras cálidas
convidaste-me, vamos? a la puesta del sol?...
e terminaste
só vão estar amigos, no chiringuito da praia.

não queria ir,
assustava-me entrar no meio de gente que não conhecia
que falavam uma língua que não dominava...

imaginei logo a limitação da conversa!!

porém, acedi.
entrei no teu carro,
que era diferente de todos os que tinha entrado
sem vidros nas janelas
sem estofos nos bancos
um carro com temperamento

levaste-me a uma praia linda
onde um mar de amigos
me olhava com ar inquisidor

examinaram-me,
demorada e minuciosamente.
pediram-te que me apresentasses
e, sem dar muita confiança
disseste:
- é a portuguesa,
amiga da Diná, acabada de chegar

a tua postura era serena, tranquila,
afinal este era o teu mundo
e estavas interessado em demonstrá-lo

o chiringuito,
todo de madeira
era lindo e acolhedor,
serviam caipirinhas
e o cheiro a pizza feita em forno de lenha
pairava no ar

um jogo de voleibol de praia
entre amigos ia começar
convidaste-me a participar
mas timidamente recusei

estava um dia lindo e
aguardávamos o pôr-do-sol

senti-me bem no teu ambiente,
lembro-me de ter, pela primeira vez,
reparado nas tuas mãos.
eram lindas, pensei
dedos magros mas fortes,
falavas com os teus olhos azuis
e as palavras saíam-te sensuais.
foste falando, sobre o teu lindo país,
numa voz era calma, atenciosa
e os teus relatos apaixonados
brotavam do azul transparente dos teus olhos
e amoleciam as minhas defesas.

tinha-te avisado que precisava de regressar cedo,
com receio que não tivéssemos conversa,
afinal, só tínhamos dois dias de vida!

mas o ambiente afectuoso que criaste,
a linda e amena tarde,
o mar apetecível, de águas mornas,
foram-me convidando a ficar

dezenas de crianças brincavam na areia
vários amigos de pele bronzeada
conversavam animadamente
e entre risadas todos esperavam
a descida do astro no horizonte

pediste-me para ficar

e fui ficando, ouvindo a música da tua voz
que me embalava,
que entrava em mim e me sossegava

um aplauso dos clientes do chiringo
acordaram-me deste encanto
era altura de festejar
o término de mais um dia
um dia a mais nas nossas vidas
mas este, não o sabia ainda,
era um dia diferente dos outros,

os teus olhos
as tuas mãos
o teu corpo
as tuas descrições
tinham mexido comigo.
sentia-me em casa
tranquila e feliz
e conseguia sentir os meus olhos a sorrir.

este tinha sido
o primeiro
dos 1321 dias de felicidade
contigo
neste meu novo continente

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Llévame hasta mi casa


Vengo de un prado vacío
un país con el nombre de un río
un edén olvidado
un campo al costado del mar.
Pocos caminos abiertos
todos los ojos en el aeropuerto
Unos años dorados
un pueblo habituado a añorar.

Como me cuesta quererte
Me cuesta perderte
Me cuesta olvidar
El olor de la tierra mojada
La brisa del mar,
brisa del mar, llévame hasta mi casa.

Un sueño y un pasaporte
como las aves buscamos el norte
cuando el invierno se acerca y el frío comienza a apretar.
Y este es un invierno largo
van varios lustros de tragos amargos
y nos hicimos mayores esperando las flores
del Jacarandá.


Como me cuesta marcharme
me cuesta quedarme
me cuesta olvidar
el olor de la tierra mojada
la brisa del mar
brisa del mar, llévame hasta mi casa.
Brisa del mar


letra da música de Jorge Drexler

sábado, 4 de setembro de 2010

La Mosca - Um voo genial e incómodo

"La Mosca"

Este foi o último álbum do grande músico Uruguaio Eduardo Mateo e o mais extremista, radical e complexo. "La Mosca" marca a obsessão que Mateus tinha com o tempo. O disco é de 1989 e Mateus morreu em 1990.

Agora, que o culto ao músico uruguaio, falecido em 16 Maio de 1990, tem vindo a crescer, especialmente em Buenos Aires, torna-se imprescindível ouvir “La mosca” (1989) que integrou a série “La maquina del tiempo” iniciada em 1983.

Mateo era obcecado com o tempo (na verdade, era um desleixado coleccionador de relógios velhos). “La Mosca”, paradoxalmente, é um disco futurista. Entre sons do mar e o tic-tac persistente de um relógio, um tema como “Somos eras” cavalga sobre um harpejo melancólico, mas o tom predominante é diferente: baterias digitais, voz deformada e os teclados de Hugo Jasa, jinglero e co-autor de todos os arranjos.

Excepto em “Juntos podemos chegar”, uma espécie de bossa nova tecno, não há músicas suaves na “Mosca”. Há, de facto, uma necessidade de reforçar uma atitude ideológica que está em dívida com um contemporâneo de Mateus, o também já falecido Jorge Lazaroff.

É preciso situarmo-nos no que foi o Uruguai dos anos 80. A música popular, muito mais do que na Argentina, estava ligada aos testemunhos dos músicos que regressavam do exílio. “La maquina del tiempo” de Eduardo Mateo foi um OVNI chegado entre arengas políticas, incompreendido pela maioria. Como escreve o meticuloso biógrafo Guilherme de Alencar Pinto acerca de Mateo: "é admirável como um músico, com uma idade onde geralmente a criatividade fica estagnada, foi explorando novos caminhos com uma frescura e um radicalismo de quem acaba de descobrir a música...".

Nos parâmetros actuais, “La mosca” situar-se-ia equidistante entre o punk e a tecno. Não é o álbum mais apropriado para “mergulhar” em Mateus. A música é difícil, incómoda, há que avaliá-la no ziguezaguear do processo evolutivo da obra deste uruguaio, uma obra que ficou como testemunho final de um personagem único.

O álbum foi originalmente editado em Dezembro de 1989. Mateus morreu alguns meses mais tarde, orgulhoso da “Mosca”, dizendo a todos os que quisessem ouvir que era seu melhor álbum.

Mas poucos o ouviram...

Ángel Eduardo Mateo López (Montevideo, 19 de septiembre de 1940 - 17 de mayo de 1990), músico y compositor uruguayo, fue uno de los grandes representantes de la música popular en su país. Compuso innumerables canciones, candombes, baladas y bossa novas como solista o junto a otros importantes artistas y conjuntos (Ruben Rada, Horacio Buscaglia, Estela Magnone, Los Malditos, El Kinto, entre otros).