quarta-feira, 3 de outubro de 2012

que afinadade com este poema do José Régio


"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre a minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

por José Régio




my humble translations to English

"Come this way" - some say to me with sweet eyes
Extending to me their arms, and secure
That it would be good I hear them
When they say, "come this way!"
I look at them with weary eyes,
(in my eyes there is, irony and tiredness)
And I cross my arms,
And never go their way ....

My glory is this:
Create inhumanity!
Do not follow anyone.
- That I live with the same ease
As which I tore my mother's womb

No, I do not go that way! I only go where
my own steps take me ...

If none of you responds to what I seek to know
Why do you repeat to me: "Come this way!"?

I prefer slip off in muddy alleys,
Swirl into the winds,
Like a wreck, drag my bloody feet ,
Than to go that way...

If I came into the world, it was
Just to deflower virgin forests,
And draw my own feet in the unexplored sand !
The most I do, is worth nothing.

How, would ye be
That should ye give impulses, tools and courage
to my obstacles? ...
It runs in your veins, old blood of grandparents,
And you love what is easy!
I love the Far and the Mirage,
I love the abysses, torrents, deserts ...

Go ye! You have roads,
You have gardens, you have flower beds,
You have homeland, you have roofs,
And you have rules, and treaties, and philosophers, and wise men ...
I got my Madness!
I raise it as a torch, burning in the dark night,
And I feel foam, and blood, and songs on the lips ...

God and the devil are my guides, no one else.
All had father all had mothers;
But I, who never begins or ends,
I was born of the love that exists between God and the Devil.

Oh, that no one gives me pious intentions!
Nobody ask me definitions!
Nobody tell me: "Come this way!"
My life is a storm that broke loose.
It is a wave that raised.
It is one atom more that is excited ...
Not sure where to go,
Not sure whither to go
- I know, that I won't go your way!

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